‘A Maldição da Residência Hill’ explora todos os tipos de fantasma

Com recursos baratos usados para causar medo, é difícil encontrar uma produção de terror que tenha um efeito duradouro em quem está assistindo. Apesar de causarem grande impacto durante a exibição e, de vez em quando, uma reflexão moral, o terror não costuma ser um gênero que emociona, e o foco nem sempre está no desenvolvimento do personagem. “A Maldição da Residência Hill”, nova série original da Netflix que já está disponível na plataforma, consegue criar cenas de horror tensas, mostra riqueza incrível nos detalhes, e, como bônus, ainda apresenta personagens e um drama familiar que são bem escritos e trabalhados. De uma maneira geral, vasculham todos os tipos de monstros que assombram nossas vidas, sejam metafóricos ou literais.

Baseada livremente no livro clássico de Shirley Jackson, lançado em 1963, a história foi criada por Mike Flanagan e mostra a casa dos Hill que é – por falta de termo melhor – mal assombrada. Assim como a primeira temporada de “This is Us”, o seriado acompanha dois tempos distintos: a breve estada de Hugh (Henry Thomas, de “E.T.”) e Olivia Crain (Carla Gugino) e seus filhos na casa, e o futuro.

Durante os 10 episódios existem sequências realmente assustadoras, que misturam alguns dos recursos mais famosos do gênero: entre momentos com jump scares, existem também cenas que não assustam, mas conseguem deixar o espectador tenso. O trabalho primoroso em torno do seriado também fez com que alguns fantasmas ficassem escondidos no plano de fundo da série. Dessa forma, quando os personagens estão apenas conversando ou seguindo com seus afazeres na casa, é comum ver uma sombra ou um vulto ao fundo.

Essa atenção aos detalhes, mais o fato de que a série é perfeitamente editada e dirigida, faz com que ela fique mais estarrecedora e potente, sem subestimar a inteligência do seu público, e desvendando a trama sem pressa.

Mas não são só os “monstros” literais que são bem feitos. O roteiro, que coloca bastante foco no drama dos Crain, também entende dos fantasmas pessoais, aqueles que podem assombrar uma pessoa durante a vida inteira. Essa família tem isso de sobra, e alguns momentos são voltados apenas para esse aspecto.

No episódio “The Bent-Neck Lady”, por exemplo, conhecemos a história de Nell (Victoria Pedretti), a irmã mais nova e gêmea de Luke (Oliver Jackson-Cohen). A mais sensível da casa e com um problema no sono, ela foi atormentada a vida inteira por uma garota-fantasma que chamava de “A menina do pescoço torto”. O roteiro se encarrega de contar isso com foco na rejeição da família para seus problemas (considerados “doenças mentais” por eles) e na forma como ela sempre é abandonada, criando um desfecho que é assustador e comovente ao mesmo tempo, dois aspectos complicados de se balancear.

A mesma coisa acontece no capítulo seguinte, “Two Storms”. Com direção espetacular, planos- sequências longos e maravilhosos, a trama se aprofunda na relação dos Crain mesclando os fantasmas literais e metafóricos que os acompanham durante a vida toda.

A visão feminina
Em certo momento da série, Olivia diz que suas filhas têm uma visão mais “sensível” da casa e de eventos “sobrenaturais” no geral, característica que elas herdaram dela e que ela, por sua vez, herdou de sua mãe.

A dinâmica entre as irmãs e a figura materna é algo fundamental para a história, e as melhores cenas são entre elas. Essa é uma característica presente na obra de Shirley e que, para que isso permanecesse na série, Mike Flanagan chamou algumas roteiristas para ajudá-lo.

Elizabeth Ann Phang, Meredith Averill, Charise Castro e Rebecca Klingel são nomes que aparecem nos créditos e que foram peças-chaves na hora de escrever os episódios de Nell, Theo (Kate Siegel) e Shirley (Elizabeth Reaser).

A visão mais sensitiva que elas têm sobre as pessoas que rodeiam a casa é o que une as irmãs de personalidades e vidas completamente diferentes. Também é o que muitas vezes dá peso extra ao tom dramático no roteiro. É como se elas fossem uma âncora uma para outra e para a história em si.

Mitologia
O criador e showrunner Mike Flanagan já deu uma entrevista dizendo que gostaria de realizar uma segunda temporada da série, ainda que de forma antológica. Ou seja, os 10 episódios serão os únicos focados no Crain. Apesar de ser um pouco decepcionante ouvir isso (já que é muito fácil se apegar aqueles personagens), essa decisão abre espaço para explorar outros aspectos da narrativa.Com todo o drama e a necessidade de ligar as pontas da história principal da primeira temporada – o que fizeram de forma bem redonda -, Flanagan vai poder explorar a família Hill, os primeiros moradores daquela casa vitoriana ou até mesmo a jornada de qualquer uma das pessoas que acabaram presas pela eternidade naquele lugar.

Embora a série também não se proponha a explicar o que exatamente é a casa ou como ela ficou dessa forma, talvez o futuro da produção tenha guardado algumas respostas para o seu público. Tudo isso vai depender da Netflix, mas considerando que a obra foi elogiada até por Stephen King (o mestre do terror contemporâneo), as perspectivas estão otimistas.

“Eu geralmente não ligo para esses tipos de remake, mas esse é ótimo. Perto de um trabalho de gênio e eu acho que Shirley Jackson iria aprovar, mas quem sabe…”, disse King no seu twitter.

Via: destakjornal.com.br

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